Quando Star Wars chegou aos cinemas em 1977, não havia “Episódio IV”, nem “Uma Nova Esperança” e muito menos uma saga de nove filmes. Entender como aquele primeiro longa acabou ocupando o centro de uma história muito maior revela uma das trajetórias mais curiosas do cinema.

Imagine entrar em uma sala de cinema em 1977 sem nunca ter ouvido falar em Jedi, Sith, Tatooine ou Darth Vader. As luzes se apagam, surge a frase “Há muito tempo, em uma galáxia muito, muito distante...” e, logo depois, duas enormes palavras ocupam a tela:

STAR WARS.

Para aquele público, não havia Episódio I, II ou III esperando para ser assistido. Na verdade, nem mesmo o Episódio IV existia como identificação daquele filme. O longa lançado nos Estados Unidos em 25 de maio de 1977 chamava-se simplesmente Star Wars. A numeração e o subtítulo A New Hope, hoje tão associados à obra que parecem ter estado ali desde o princípio, seriam incorporados posteriormente.

Essa pequena diferença muda bastante a resposta para uma das perguntas mais recorrentes sobre a franquia: por que George Lucas começou Star Wars pelo Episódio IV?

A resposta mais interessante é que ele não começou exatamente assim.

Antes de existir o Episódio IV, existia apenas Star Wars

O primeiro filme já apresentava uma característica que se tornaria fundamental para a identidade da franquia: a sensação de que aquela galáxia possuía uma história muito maior do que aquilo que estava sendo mostrado.

A aventura de Luke Skywalker começa quando uma guerra já está em andamento. Existe um Império, existe uma Rebelião, uma princesa transporta informações roubadas e personagens falam sobre Jedi, República e Guerras Clônicas sem que o filme pare constantemente para explicar cada referência. Obi-Wan Kenobi claramente pertence a uma época anterior, enquanto Darth Vader surge como alguém cujo passado ainda permanece envolto em mistério.

Essa maneira de construir o universo fazia o espectador sentir que havia chegado no meio de uma história. O famoso texto de abertura reforçava essa impressão, apresentando rapidamente uma situação política e militar que já existia antes do início da aventura que acompanharíamos.

Hoje sabemos muito sobre aquele passado. Em 1977, o público precisava imaginá-lo.

Essa diferença é fundamental para compreender por que a trilogia original possui uma experiência narrativa tão particular. A antiga República, os Jedi e acontecimentos anteriores à ascensão do Império funcionavam quase como lendas de um mundo que existia além dos limites daquele primeiro filme.

E, naquele momento, ninguém precisava perguntar por que estava assistindo ao Episódio IV, porque a tela nunca dizia que aquele era o Episódio IV.

Foi O Império Contra-Ataca que mudou a percepção

Três anos depois, a situação começou a ficar mais interessante.

Quando The Empire Strikes Back chegou aos cinemas em 1980, sua abertura apresentava claramente Episode V. De repente, aquilo que havia começado simplesmente como Star Wars estava sendo colocado dentro de uma estrutura narrativa maior.

Se aquele novo filme era o quinto episódio, o longa anterior precisava ocupar uma posição nessa sequência.

A mudança tornou-se explícita quando o primeiro Star Wars voltou aos cinemas em 10 de abril de 1981. A abertura foi modificada e passou a apresentar oficialmente:

Episode IV
A New Hope

A própria franquia registra que essas palavras não faziam parte da abertura exibida em maio de 1977 e foram acrescentadas posteriormente.

Por isso, existe uma diferença histórica importante entre afirmar que George Lucas lançou o Episódio IV em 1977 e dizer que o primeiro Star Wars passou a ocupar a posição de Episódio IV conforme a saga ganhou forma.

Pode parecer apenas uma questão de nomenclatura, mas ela revela algo muito maior sobre como Star Wars foi construído.

George Lucas já tinha nove filmes planejados?

Aqui entramos em uma das partes mais interessantes da história, principalmente para quem já conhece bastante a franquia.

O universo concebido por George Lucas sempre foi maior do que aquilo que caberia em um único filme, e diferentes ideias sobre acontecimentos anteriores e posteriores apareceram durante o desenvolvimento. Isso, entretanto, não significa que os nove episódios da Saga Skywalker estivessem perfeitamente definidos, com suas histórias e personagens exatamente como os conhecemos, antes de as câmeras começarem a filmar em 1976.

Star Wars passou por um longo processo criativo. Conceitos mudaram, personagens foram reformulados, relações entre eles evoluíram e elementos fundamentais da mitologia ganharam novas formas durante a produção dos filmes.

Essa distinção é importante porque atualmente enxergamos a saga de trás para frente. Temos nove episódios numerados e conseguimos organizá-los perfeitamente em uma prateleira:

I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII e IX.

Essa organização produz naturalmente a impressão de que a arquitetura completa existia antes da construção começar.

A história real foi muito mais dinâmica.

E talvez isso torne Star Wars ainda mais interessante.

Conhecer primeiro Luke mudou completamente a experiência

Mesmo que a estrutura tenha evoluído ao longo do tempo, começar a história cinematográfica pela geração de Luke Skywalker acabou produzindo uma consequência narrativa extraordinária: o passado permaneceu misterioso durante décadas.

Quando Obi-Wan fala sobre os Jedi e sobre uma época anterior ao Império, o espectador de 1977 não possui imagens daquele mundo para preencher as lacunas. Quando Darth Vader aparece, não acompanhamos sua infância ou juventude. Encontramos primeiro o homem que ele se tornou.

Isso também significa que algumas das grandes revelações da trilogia original funcionavam de maneira muito diferente para aquele público.

Quem começa atualmente pelo Episódio I conhece Anakin Skywalker desde criança e acompanha progressivamente sua trajetória. Quem começa pelo Episódio IV encontra Darth Vader primeiro e precisa descobrir seu passado juntamente com Luke.

Nenhuma dessas experiências precisa ser considerada superior à outra, mas elas são narrativamente diferentes.

E essa diferença só existe porque Star Wars foi construído em uma ordem tão incomum.

Primeiro, o público conheceu IV, V e VI

Depois de Star Wars, em 1977, vieram The Empire Strikes Back, em 1980, e Return of the Jedi, em 1983. Assim nasceu aquilo que hoje chamamos de trilogia original.

A sequência conhecida pelo público era:

IV → V → VI

Luke, Leia, Han Solo, Chewbacca e Darth Vader definiram a primeira geração cinematográfica de Star Wars. O passado de Anakin, a República antes do Império e a Ordem Jedi em seu auge continuavam pertencendo a uma época que os filmes apenas mencionavam.

Quando Return of the Jedi chegou ao fim, havia uma conclusão satisfatória para a trajetória central daquela trilogia. Ao mesmo tempo, a própria numeração indicava que existia uma história anterior ainda não mostrada.

Durante anos, os Episódios I, II e III permaneceram justamente nesse território: eram o passado da saga.

Até que Star Wars decidiu voltar no tempo.

Dezesseis anos depois, finalmente chegou o Episódio I

Em 1999, The Phantom Menace levou o público a uma época anterior à trilogia original e apresentou um jovem Anakin Skywalker, uma República ainda existente e uma Ordem Jedi muito diferente daquela memória distante mencionada por Obi-Wan em 1977.

Depois vieram Attack of the Clones, em 2002, e Revenge of the Sith, em 2005.

As prequelas fizeram algo curioso com a própria percepção da franquia. Elementos que durante décadas haviam existido principalmente como passado mencionado pelos personagens agora podiam ser vistos diretamente. As Guerras Clônicas ganharam contexto, a República pôde ser observada antes de sua queda e a transformação de Anakin em Darth Vader deixou de ser apenas uma informação sobre o passado para se tornar parte central da narrativa.

A cronologia cinematográfica estava finalmente organizada assim:

I → II → III → IV → V → VI

Mas ninguém que tivesse acompanhado Star Wars desde o começo havia assistido dessa maneira.

Para esse público, a experiência tinha sido:

IV → V → VI → I → II → III

Primeiro conhecemos as consequências.

Depois descobrimos as causas.

Essa inversão é uma das características mais particulares de Star Wars.

Parecia que a história estava completa

Quando Revenge of the Sith chegou aos cinemas em 2005, os seis filmes formavam uma estrutura quase perfeitamente circular. A história começava com Anakin, mostrava a queda da República e o surgimento do Império, passava então para Luke e terminava com os acontecimentos de Return of the Jedi.

Para muitos espectadores, aquela era a saga completa.

Durante alguns anos, assistir aos seis episódios significava acompanhar uma narrativa que atravessava duas gerações da família Skywalker.

Mas Star Wars ainda não havia terminado de reorganizar sua própria história.

Então a saga decidiu seguir além do Episódio VI

Uma nova transformação aconteceu depois que a The Walt Disney Company adquiriu a Lucasfilm em 2012. A franquia retornaria aos cinemas não para explorar novamente o passado, mas para avançar além de Return of the Jedi.

Em 2015, Star Wars: Episode VII – The Force Awakens apresentou uma nova geração de personagens, principalmente Rey, Finn, Poe Dameron e Kylo Ren, enquanto recuperava figuras fundamentais da trilogia original.

Décadas haviam transcorrido dentro daquele universo. A vitória sobre o Império não significara o desaparecimento definitivo de todos os conflitos, e uma nova ameaça, a Primeira Ordem, surgira a partir dos remanescentes imperiais.

A história continuou com Episode VIII – The Last Jedi, em 2017, e chegou ao Episode IX – The Rise of Skywalker, em 2019. A Lucasfilm apresentou o último filme como a conclusão da história iniciada décadas antes, consolidando os nove episódios sob a denominação Saga Skywalker.

Só então aquela sequência que hoje parece tão natural ficou completa:

I → II → III → IV → V → VI → VII → VIII → IX

Foram necessários 42 anos, de 1977 a 2019, para que o primeiro Star Wars passasse de um filme sem número para o capítulo central de uma saga cinematográfica de nove episódios.

A saga foi construída pelo meio, voltou ao começo e depois encontrou seu final

Colocar as três trilogias lado a lado revela talvez a maior curiosidade dessa história.

Dentro do universo, a sequência é perfeitamente linear:

I – II – III | IV – V – VI | VII – VIII – IX

Na história do cinema, porém, a construção aconteceu assim:

IV – V – VI | I – II – III | VII – VIII – IX

Primeiro conhecemos Luke e as consequências da queda de Anakin. Depois voltamos para descobrir como aquela queda aconteceu. Finalmente avançamos novamente para acompanhar uma geração vivendo as consequências das duas trilogias anteriores.

Isso transforma os nove episódios em algo próximo de uma trilogia de trilogias, expressão também utilizada em materiais oficiais relacionados à Saga Skywalker.

E existe outra camada interessante nessa divisão. Cada trilogia também registra um período diferente da própria história do cinema.

A trilogia original, produzida entre 1977 e 1983, está profundamente associada ao desenvolvimento de técnicas de efeitos visuais, miniaturas, cenários físicos e efeitos práticos que ajudaram a redefinir o espetáculo cinematográfico. As prequelas, entre 1999 e 2005, mostram George Lucas explorando intensamente cenários digitais, personagens gerados por computador e novas possibilidades de produção. A terceira trilogia, entre 2015 e 2019, pertence a outro momento tecnológico, combinando recursos digitais contemporâneos com uma recuperação deliberada de elementos físicos e visuais associados à trilogia original.

Assim, não são apenas Luke, Anakin e Rey que pertencem a gerações diferentes.

O próprio Star Wars pertence a várias gerações.

E onde entram Rogue One, Solo e as séries?

Quando observamos tudo o que existe atualmente dentro de Star Wars, os nove episódios representam apenas uma parte daquele universo.

Rogue One: A Star Wars Story, por exemplo, acompanha a operação que resulta no roubo dos planos da Estrela da Morte e conduz diretamente aos acontecimentos que encontramos no início de A New Hope. Cronologicamente, portanto, ele está praticamente encostado no Episódio IV, mas não recebe um número porque não integra a sequência principal da Saga Skywalker.

Solo: A Star Wars Story funciona de maneira semelhante ao explorar acontecimentos anteriores da vida de Han Solo sem ocupar uma posição numérica entre os episódios.

Animações e séries ampliaram ainda mais essa cronologia, preenchendo espaços entre filmes, acompanhando outros personagens e explorando períodos que os nove episódios não tinham condições de desenvolver.

Por isso, dizer que a Saga Skywalker possui nove episódios não significa dizer que Star Wars possui apenas nove histórias. Significa apenas que I a IX formam o eixo cinematográfico numerado em torno do qual uma parte importante daquele universo foi construída.

Então qual é a ordem certa para assistir?

Depois de entender como essa estrutura surgiu, talvez a pergunta mais interessante deixe de ser “qual é a ordem correta?” e passe a ser “qual experiência você deseja ter?”

Assistir pela ordem de lançamento significa começar como o público começou:

IV → V → VI → I → II → III → VII → VIII → IX

Nesse percurso, o passado permanece misterioso durante a trilogia original. Primeiro conhecemos Darth Vader; depois conhecemos Anakin. Primeiro ouvimos falar da antiga República; depois a vemos. As prequelas passam a funcionar como uma enorme resposta para perguntas que existiam havia décadas.

Já a ordem cronológica reorganiza tudo:

I → II → III → IV → V → VI → VII → VIII → IX

Agora acompanhamos a história desde Anakin, atravessamos sua queda, chegamos à trajetória de Luke e finalmente alcançamos Rey. A experiência ganha continuidade temporal, mas algumas informações que originalmente funcionavam como revelações passam a ser conhecidas antecipadamente.

Há ainda inúmeras ordens alternativas criadas pelos fãs, mas elas mostram justamente como a estrutura peculiar de Star Wars continua permitindo diferentes maneiras de revisitar a mesma história.

Para quem está chegando agora, compreender essa diferença é mais importante do que decorar uma ordem considerada “correta”. Para quem já conhece os filmes, experimentar outra sequência pode revelar relações entre personagens e acontecimentos que anteriormente passavam despercebidas.

E talvez essa seja a verdadeira resposta

Depois de nove episódios, inúmeras séries, filmes derivados, animações, livros, quadrinhos e jogos, é difícil voltar mentalmente para maio de 1977.

Hoje vemos Darth Vader e conhecemos Anakin. Ouvimos “Guerras Clônicas” e sabemos o que aconteceu. Vemos Obi-Wan e conhecemos parte considerável de sua trajetória. Sabemos o que ocorreu antes do Episódio IV e também o que aconteceu décadas depois dele.

O primeiro público não possuía nenhuma dessas respostas.

E talvez seja justamente isso que torne a origem de Star Wars tão fascinante. A franquia não nasceu diante dos espectadores como uma coleção organizada de nove capítulos esperando para ser exibida. Ela cresceu, mudou, retornou ao próprio passado e avançou novamente, enquanto diferentes gerações descobriam aquela galáxia de maneiras completamente distintas.

Hoje parece perfeitamente natural enxergar A New Hope entre Revenge of the Sith e The Empire Strikes Back. Entretanto, foram necessários mais de quarenta anos para que a sequência completa adquirisse essa forma.

Primeiro vieram IV, V e VI.

Depois I, II e III.

Por último VII, VIII e IX.

Uma saga de nove capítulos que começou pelo quarto, voltou ao primeiro e somente depois continuou pelo sétimo.

E tudo isso nasceu de um filme que, quando as luzes se apagaram em 1977, ainda não precisava de número ou subtítulo.

Para o público que estava naquela sala, existia apenas Star Wars.

 

Fontes e referências